O último dia

Doía assistir aos movimentos do corpo. Uma agonia abaixo da barriga, não se sabe onde, recolocava as futilidades nos lugares devidos, e machucava com mais força. Os sorrisos repentinos durante a conversa, os passos tão reveladores, o barulho das palmas na mesa acompanhando a música aos gritos.

Costumava esperar pela surpresa: ansiava pelo dia em que o convidariam para um lugar novo. A festa na casa da Leila, o trabalho no tribunal recém-inaugurado, a rodoviária que aparecia paciente no mapa. Era impossível àquela cuca cheia de vários artifícios inusitados deixar um vazio para acontecimentos futuros.

Gostava de imaginar esses lugares sem querer. Divertia-se em tirar fotografias de olhos fechados e conferir os negativos. Revelação: o inconsciente juntava remendos de segundos ou meses ou anos e patá. Aquele seria o lugar. Daquele jeitinho. Se já chegou perto da realidade? Nunca. E era sempre ótimo.

Uma vila tem que fazer festas com boa frequência. Festejos, festivais, festanças. E vão-se em um dó si lá confetes, serpentina, espuma de barbear para peles sensíveis, papel higiênico, mangueira do jardim apagada de sol. As crianças, que vieram entuchadas alegres na caçamba da camioneta, chegaram. Pega-pega.

De preferência, os moradores não devem nem preocupar-se no fim próximo do festim; tampouco com o potencial trabalho que dará para barrer o lixo da rua; menos ainda evocar a aura quebrada de uma segunda-feira, que só faz se aproximar como um caminhão em rodovia vicinal. Tudo decretado pelo prefeito e aprovado na câmara há muito tempo. Cumpra-se!

A cidadezinha sabia que não faria celebrações-ao-contrário sem intensidade. Pois doía ter acabado o que fora muito bom mesmo. Ou por se sentir abençoado. Era hora de enterrar os mortos, embora a terra nunca fosse ouvida em dias comuns.

Agora que todos estavam na fila mais correta, deitados esperando um tempo sem definição, era doído pensar nos movimentos. Por um tempinho, estava tão imóvel quanto todos eles. E um sorriso lembrado nunca fora tão bonito, mesmo que fizesse o corpo chorar bastante.

 

ex aspectu nascitur amor + #ForçaChape

Du Esperanco

A Estátua

Agora, vou mostrar o que lhe trouxe. Era a parte mais difícil da apresentação àquela plateia de uma só, bem no meio do theatro municipal. A um, a mudança de assunto pareceu desenfreada, pisoteando plantas; a outro, a única maneira de entregar um presente perecível. Mas os ensaios não haviam previsto tudo.

Quiçá (estava tão esfuziante que havia pensado neste termo), o ensaio era o melhor pedaço. De novo, de novo. Dava algo de heroico. E os heróis não nasciam prontos. Nadava sozinho na chuva mais estúpida, na última raia, com vista para o vazio – e a visão azul-escuro dos óculos tentava-o tanto que pagava com mãos raladas nas boias duras e com pingos maldosos que o levavam a um aquário de lágrimas não concebidas.

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Mohammad Noman/Flickr c.c.

Embora fosse de fato trabalhoso – “não é difícil, é trabalhoso”, lembrava-se das aulas de dificuldade -, cada pensamento que tinha sobre aquilo parecia justo. Era como olhar as horas em um espelho d’água.

Evidente que era meio de semana, e as pessoas estavam ótimas, obrigado, correndo-e-correndo a não ser que tivessem de estancar assustadas, para daí depois arrepender-se das duas coisas. A esta hora, ela estaria provavelmente deitada na cama clara, com duas toalhas claras depois do banho claro, com aqueles olhos grandes e coroado com grandes cílios, cuidadosamente feitos. Olhando sem ver. Naquela meia hora de lei, desde sempre.

Não sabia o que o vestia com roupas mais tolas: imaginar esse universo ou pensar que valeria a pena tentar construir uma memória de outra pessoa. Sem consulta. Ou medida. Ainda mais pra ela. Melhor não cogitar descer todos aqueles degraus.

Ensaio de dança sem par, precisava fantasiar absurdamente. Bailava sem canção, como gostava. Também era afeito a ficar sozinho naqueles passos, mas estava tão perto de conseguir uma metade de quem ouviria respostas às brincadeiras e piadas e também sorrisos tímidos quase que todo dia e quem sabe um beijo!

A fotografia inteira estava ali. Todos os planos. E era hora de voltar pra casa. Não comeria, não dormiria, não ficaria calmo. Continuaria repassando toda a peça (a única realmente desenhada naquelas engrenagens tortas). Tinha elaborado com pequena parte do capricho um presente em caso de rejeição. Um em cada bolso.

Agora agora. Vai vai. VAI!

– Então, lembra do que a gente tinha conversado naquele dia?

– Não?

– Eu contava com o seu sim agora. E depois tamb…

– Não, eu não tô dizendo que… Na verdade, é, mas o jeito que eu…

– Eu tô… não tô, na verdade, mas…

– Bom, então… Então, eu fiz uma coisa pra você.

***

O pior do dia de um carteiro é entregar correspondências para quem não as corresponde.

***

Meus olhos pesados não podem cair exatamente agora.

 

Du Esperanco

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Introdução à Teoria do Conhecimento

Ele era genial. A aula começava às oito, mas sete e quinze já estava lá. Enquanto cobria a lousa com frases de efeito, ouvia músicas clássicas gravadas nos CD’s que trazia na bolsa de lona. O pequeno copo plástico com água ficava sobre a mesa e frequentemente pulava pro chão após um movimento de mão mal calculado. Pontualmente começava a explanar e os alunos atrasados que paulatinamente iam chegando eram recebidos com seu olhar de reprovação; jamais parava de falar. Citava nomes que eu, em tempo algum, havia escutado – até duvidava das suas existências. Citava sua mãe, Ana Maria Braga, filósofos e humanistas que transcendiam rotulações.

Às vezes resolvia nos contar de sua vida, com o cuidado de achar alguma razão acadêmica para os exemplos na primeira pessoa. Certa vez, fez-me ficar com um nó na garganta que demorou a desatar. A filha mais velha faleceu por conta da leucemia, coitada. Coitado. O brilhante professor fora sentenciado ao mais cruel e nefasto cadafalso: aquele que não mata. Estava explicado o amor incomum à profissão, a dedicação aos livros e à música – faziam-no esquecer, ou não pensar, na dor lancinante.

Todas as vezes que o via, inevitavelmente lembrava de sua trajetória. Como seriam as datas comemorativas, os almoços em família e as noites de pesadelo? À la Jaromir (de Borges), na época eu cultivava superstições; e descobri que a realidade não costumava coincidir com minhas previsões. Eu, na lógica inversa, achava que prever um acontecimento impediria que este ocorresse. E dessa forma, devoto a esta tênue magia, criava (para que não existissem), fatos aterrorizantes. Tive repulsa por conta dessas futilidades ao lembrar de sua filha.

Irrompeu meus pensamentos ao citar Mannheim. Como ele conseguia?

O Tempo não é uma represa

Ressecado, você só percebeu que pertencia ali quando sentiu a primeira chuva forte. Era como levar um conhecido para almoçar, passando a saber se fita o garçom, se é indeciso, se demora a escolher, se passa os dedos no menu com plástico peguento, se olha mais o preço do que o prato. Ele poderia ser igualzinho a você, que faz campeão um suco e revoga, tendo que gritar para trocar o sabor. Duas vezes. Mas não houve chuva. Sequer frio. Estávamos na pior-seca-desde-uma-data-muito-velha.

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Foto: Vincent Lock/Flickr cc

O colégio mudara desde o medo que o teto da quadra desabasse com aqueles pingos de aço. O enxame vinha com alarido e uma impressão de que era tudo sem querer. A despeito da fremência, o cheirinho de chuva (ou de terra molhada?) fez o sujeitinho atentar-se pr’umas coisas.

O cano aberto, as arquibancadas ásperas (e parcas: só três degraus), as cadeiras de braços marrom-escuras acavaladas perto das torneiras que faziam as vezes de bebedouro e de represa, já que os pilotos de jogadores tinham de seguir o ritual de fazer da mão direita uma concha, e da esquerda uma barragem. Energia limpa pronta para causar picos de pressão, esquentar a cabeça, machucar pernas desgraçadamente e sentir como é fácil jogar com o coração na ponta de qualquer coisa.

Logo no último mês de aula, já nas gincanas, viu aquelas águas na escola. Perdeu a partida, ficou de fora observando. Só pensava em respirar, muito embora o ar não lhe faltasse – como de costume, noves fora a asma. O tempo passou rápido, caramba. Nem conseguia calcular as horas de aula, as provas, as páginas de caderno, os quadros apagados na hora errada, as vezes em que encarou o relógio de parede comezinho. Tinha um medo quase bom do próximo ano. Tudo aquilo já era pó de giz no chão, que ainda não era de todo assentado e podia atacar alergias letargas.

Sentiu-se diferente, foi pra rua ver o tamanho – e a cor – da enxurrada. Quis também, de pouquinho em pouquinho, experimentar o gosto, o cheiro e o toque daquele réptil. Levava até uma pessoa, diziam. Só foi perceber anos depois que uma pessoa poderia ser levada pela água contra a sua vontade, e que isso não seria legal.

Voltando: enquanto todos ao redor naquele aposento infinito, nas baias maliluminadas por luzes frias sofriam para logo ver a grama esmeraldear, respirar direito, recuperar peles e cabelos, parar de lavar os carros e de regar o jardim, aboletar-se nos casacos elegantes e caros, ver nuvens alaranjadas, repisar poças, assistir a dramas bobos com edredom, aproximar-se de janelas pingadas e fitar só as gotas e desfocar o fundo da cidade que não importava mais de nada…

Ele só queria pertencer ali.

 

Du Esperanco

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o centro de uma estrela

O pesar em gotas tirou-lhe do piloto automático: levantou-se sentindo que algo não ficaria bem. Esperava afundar no chão. Para onde os livros de geografia pintam de amarelo, laranja e vermelho. Depois de muito tentar, tudo o que conseguiu foi ficar na superfície, exposto, jogado, encharcado de uma náusea que não viajaria com remédios de última hora.

A despeito da febre, máscara de suor que não lavou causas, ele teria de. Sem prosseguir a frase, leitor, já consegui dizer o pior. Complemento. Ele teria de. Queria? Você sabe que não.

De tanto passar calor a pino, estava com o pijama cinza daquela cor de atletas em propagandas esportivas. Um cinza escuro, que não pende para o preto ou para qualquer outra cor. Que é digno. Digno de universo em movimento. Ressaca vencida, ônibus alcançado, baba disputado na raça. Está faltando a parte ruim, bem passada. Pois: de tão ensopado, começou a passar frio, especialmente nas costas. E a asma sempre fora covarde.

Com aqueles óculos de uma época bem apagada, qualquer alvo traria tristeza. O teto branco, por ser vazio; o teto com figuras, por ser desesperado. O amontoado de livros, pela bandalha; a fila de livros, pela conveniência mesquinha (pois havia tantas maneiras de se fazer aquilo). Sentia frio depois de tanto sentir-se quente. Caldo, cold. É claro que o cobertor não aplacaria a invernia ou a soalheira.

Nada iria aplacar nada de nada – mas poderia existir um caminho entre sufoco e ermo.

 

Du Esperanco

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