Quanto tempo

Como sempre, escorregou pela cadeira de fios trançados até que os tornozelos alcançassem a mureta de concreto. Ali mesmo espreguiçou, olhando as estrelas. Naquela postura sublime, confortável e aconchegante que só os homens provincianos conhecem, esperou pacientemente a digestão.

Correu o dia pela cabeça, o sol ardente daquela manhã na roça e os preparativos para as festas de final de ano. Pensou nas crianças pobres da creche que pulavam o muro de sua casa para comer o bolo que ficava sobre a mesa da varanda e sorriu para si mesmo.

Queria ir dormir, mas tinha preguiça de levantar. O silêncio ensurdecedor lá de fora era muito convidativo para ser ignorado. Demorou um pouco mais e contemplou a noite, os aromas e o nada, porque a gente nunca sabe quando será a última vez.

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Logo cedo partiu para o campo – sua obrigação de aposentado. Pela primeira vez na vida, viu através do sol, das nuvens e dos céus. O astro celeste não era mais ardido como na manhã anterior. Pelo contrário, era morno e aconchegante como a cadeira de fios que ficava na varanda. Seu peito doía um pouco, é verdade, mas nada que se comparasse à paz que desfrutava. Sabia que tinha algumas coisas por fazer, mas quando não? Deixou-se entorpecer pela inexplicável sensação de alívio e liberdade, convicto de suas certezas, amparado pela fé. Deixou a mesquinhez terrestre para trás e todos sentiram o perfume de até logo pelo ar.

Renan Milaré.

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