Pacífico e outras observações

Ergueria a casa do jeito que quisesse. Sim,senhor. Sem firulas, sem papelzinho-de-parede alinhado à mesa de centro. Sem mesa de centro. Sem estética minimalista. Sem estética. Área externa grande, sem rampa, sem corrimão. Isso é uma casa, não um hospital.

O jipão de guerra acabara de sair da oficina. Ignorou completamente os dez minutos de discurso sobre o método do mecânico. Concentrou-se em encontrar o caixa e pagar aquela brincadeira toda. Nem perguntou se dividiam sem juros porque odiava parcelar o que quer que fosse. Uma vez só e que não volte mais, diabo.

– O senhor gostaria de aceitar a segunda via? Respondendo nossa pesquisa de satisfação 360º você pode concor…

Que idiota. MAS QUE IDIOTA! Tinha raiva de pensar no latrocínio, crime inafiançável, à conta bancária, que costumava levar tiros sem remendo. E eu lá vou ficar fazendo reparo. Deixa vazar, que merece. Ódio do câmbio novo. E do velho. E de como ele mereceu a surra que levou quando não parou de tremer como um animal louco. Louco, louco. Não só arranquei como joguei foi longe. E foi pouco. O jipe funcionava perfeitamente agora. Calibrado pra guerra. Pois bem.

A obra poderia continuar. E a chuva que se danasse. Faltava tijolo, ia pedra. Faltava cimento, pegava de rebarbas. Faltava areia, ia de terra. Faltava projeto, ia de cabeça. Era um engenheiro. Qual engenheiro não poderia erguer uma casa? A própria casa?

A mão esquerda compensou a outra que parecia estar quebrada, luxada, trincada — aquelas palavras doloridas. Soco na vaca teimosa. Que morreu. A pedra do feijão sujo fazia os dentes doerem pra burro. A horta que nunca chegou a dar nada olhava aquele projeto de casa como quem diz: eu avisei. Qualquer um iria às gargalhadas ao avistar um sujeito todo enfaixado – na cabeça a estampa era ainda pior – ralhar com os materiais de construção no terreno mais irregular possível.

***

Grande inauguração. Viva. Onde estão esses pulhas de convidados que não vêm? Venham, que vou mostrar a casa. Vamos que vai ser uma visita só pro dia todo. A porta não abria toda por conta do rodapé desmedido. Banheiro na cozinha. O corrimão estava com um problema de ausência. A escada tinha menos degraus do que o razoável, de um azulejo mais liso que o recomendado, com uma inclinação criminosa. Que orgulho. Fácil? Foi facinho fazer isso aqui. Uma sentada só.

O churrasco foi. Teve tudo o que um bom almoço tem, graças aos convidados. Eles poderiam escolher um bom feijão, um bacon de respeito, uma mandioca amarela derretendo, carne berrando. Sabiam desde sempre que o anfitrião ficaria logo emputecido e jogaria feijão bacon arroz farofa carne congelada mandioca tudo na panela de pressão e que se dane.

Fim de festa. Graças. Ficaria com ódio de tudo ter acabado, mas estava embriagado e cansado demais e puto por não estar dormindo logo. Subiria as escadas para cochilar no sereno, porque achou a ideia de um telhado uma imbecilidade. As poucas partes cobertas da casa eram no térreo. O segundo andar era o mais arrojado teto solar, disseram os sofisticados. Bobagem pura! Dormir no sereno é uma beleza. Mas antes do sono prateado,

Caiu estalado bem feio na escada de um jeito muito estranho.

Anestesia alcoólica regredindo desgraçadamente. Aqueles barulhos. Escada cor de sangue escurecendo e pingando rápido demais. Enquanto ele não se mexia. Sentiu uma vontade endiabrada de dar na própria cara. Diabo.

 

Du Esperanco

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O último dia

Doía assistir aos movimentos do corpo. Uma agonia abaixo da barriga, não se sabe onde, recolocava as futilidades nos lugares devidos, e machucava com mais força. Os sorrisos repentinos durante a conversa, os passos tão reveladores, o barulho das palmas na mesa acompanhando a música aos gritos.

Costumava esperar pela surpresa: ansiava pelo dia em que o convidariam para um lugar novo. A festa na casa da Leila, o trabalho no tribunal recém-inaugurado, a rodoviária que aparecia paciente no mapa. Era impossível àquela cuca cheia de vários artifícios inusitados deixar um vazio para acontecimentos futuros.

Gostava de imaginar esses lugares sem querer. Divertia-se em tirar fotografias de olhos fechados e conferir os negativos. Revelação: o inconsciente juntava remendos de segundos ou meses ou anos e patá. Aquele seria o lugar. Daquele jeitinho. Se já chegou perto da realidade? Nunca. E era sempre ótimo.

Uma vila tem que fazer festas com boa frequência. Festejos, festivais, festanças. E vão-se em um dó si lá confetes, serpentina, espuma de barbear para peles sensíveis, papel higiênico, mangueira do jardim apagada de sol. As crianças, que vieram entuchadas alegres na caçamba da camioneta, chegaram. Pega-pega.

De preferência, os moradores não devem nem preocupar-se no fim próximo do festim; tampouco com o potencial trabalho que dará para barrer o lixo da rua; menos ainda evocar a aura quebrada de uma segunda-feira, que só faz se aproximar como um caminhão em rodovia vicinal. Tudo decretado pelo prefeito e aprovado na câmara há muito tempo. Cumpra-se!

A cidadezinha sabia que não faria celebrações-ao-contrário sem intensidade. Pois doía ter acabado o que fora muito bom mesmo. Ou por se sentir abençoado. Era hora de enterrar os mortos, embora a terra nunca fosse ouvida em dias comuns.

Agora que todos estavam na fila mais correta, deitados esperando um tempo sem definição, era doído pensar nos movimentos. Por um tempinho, estava tão imóvel quanto todos eles. E um sorriso lembrado nunca fora tão bonito, mesmo que fizesse o corpo chorar bastante.

 

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Du Esperanco

A Estátua

Agora, vou mostrar o que lhe trouxe. Era a parte mais difícil da apresentação àquela plateia de uma só, bem no meio do theatro municipal. A um, a mudança de assunto pareceu desenfreada, pisoteando plantas; a outro, a única maneira de entregar um presente perecível. Mas os ensaios não haviam previsto tudo.

Quiçá (estava tão esfuziante que havia pensado neste termo), o ensaio era o melhor pedaço. De novo, de novo. Dava algo de heroico. E os heróis não nasciam prontos. Nadava sozinho na chuva mais estúpida, na última raia, com vista para o vazio – e a visão azul-escuro dos óculos tentava-o tanto que pagava com mãos raladas nas boias duras e com pingos maldosos que o levavam a um aquário de lágrimas não concebidas.

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Mohammad Noman/Flickr c.c.

Embora fosse de fato trabalhoso – “não é difícil, é trabalhoso”, lembrava-se das aulas de dificuldade -, cada pensamento que tinha sobre aquilo parecia justo. Era como olhar as horas em um espelho d’água.

Evidente que era meio de semana, e as pessoas estavam ótimas, obrigado, correndo-e-correndo a não ser que tivessem de estancar assustadas, para daí depois arrepender-se das duas coisas. A esta hora, ela estaria provavelmente deitada na cama clara, com duas toalhas claras depois do banho claro, com aqueles olhos grandes e coroado com grandes cílios, cuidadosamente feitos. Olhando sem ver. Naquela meia hora de lei, desde sempre.

Não sabia o que o vestia com roupas mais tolas: imaginar esse universo ou pensar que valeria a pena tentar construir uma memória de outra pessoa. Sem consulta. Ou medida. Ainda mais pra ela. Melhor não cogitar descer todos aqueles degraus.

Ensaio de dança sem par, precisava fantasiar absurdamente. Bailava sem canção, como gostava. Também era afeito a ficar sozinho naqueles passos, mas estava tão perto de conseguir uma metade de quem ouviria respostas às brincadeiras e piadas e também sorrisos tímidos quase que todo dia e quem sabe um beijo!

A fotografia inteira estava ali. Todos os planos. E era hora de voltar pra casa. Não comeria, não dormiria, não ficaria calmo. Continuaria repassando toda a peça (a única realmente desenhada naquelas engrenagens tortas). Tinha elaborado com pequena parte do capricho um presente em caso de rejeição. Um em cada bolso.

Agora agora. Vai vai. VAI!

– Então, lembra do que a gente tinha conversado naquele dia?

– Não?

– Eu contava com o seu sim agora. E depois tamb…

– Não, eu não tô dizendo que… Na verdade, é, mas o jeito que eu…

– Eu tô… não tô, na verdade, mas…

– Bom, então… Então, eu fiz uma coisa pra você.

***

O pior do dia de um carteiro é entregar correspondências para quem não as corresponde.

***

Meus olhos pesados não podem cair exatamente agora.

 

Du Esperanco

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Introdução à Teoria do Conhecimento

Ele era genial. A aula começava às oito, mas sete e quinze já estava lá. Enquanto cobria a lousa com frases de efeito, ouvia músicas clássicas gravadas nos CD’s que trazia na bolsa de lona. O pequeno copo plástico com água ficava sobre a mesa e frequentemente pulava pro chão após um movimento de mão mal calculado. Pontualmente começava a explanar e os alunos atrasados que paulatinamente iam chegando eram recebidos com seu olhar de reprovação; jamais parava de falar. Citava nomes que eu, em tempo algum, havia escutado – até duvidava das suas existências. Citava sua mãe, Ana Maria Braga, filósofos e humanistas que transcendiam rotulações.

Às vezes resolvia nos contar de sua vida, com o cuidado de achar alguma razão acadêmica para os exemplos na primeira pessoa. Certa vez, fez-me ficar com um nó na garganta que demorou a desatar. A filha mais velha faleceu por conta da leucemia, coitada. Coitado. O brilhante professor fora sentenciado ao mais cruel e nefasto cadafalso: aquele que não mata. Estava explicado o amor incomum à profissão, a dedicação aos livros e à música – faziam-no esquecer, ou não pensar, na dor lancinante.

Todas as vezes que o via, inevitavelmente lembrava de sua trajetória. Como seriam as datas comemorativas, os almoços em família e as noites de pesadelo? À la Jaromir (de Borges), na época eu cultivava superstições; e descobri que a realidade não costumava coincidir com minhas previsões. Eu, na lógica inversa, achava que prever um acontecimento impediria que este ocorresse. E dessa forma, devoto a esta tênue magia, criava (para que não existissem), fatos aterrorizantes. Tive repulsa por conta dessas futilidades ao lembrar de sua filha.

Irrompeu meus pensamentos ao citar Mannheim. Como ele conseguia?

O Tempo não é uma represa

Ressecado, você só percebeu que pertencia ali quando sentiu a primeira chuva forte. Era como levar um conhecido para almoçar, passando a saber se fita o garçom, se é indeciso, se demora a escolher, se passa os dedos no menu com plástico peguento, se olha mais o preço do que o prato. Ele poderia ser igualzinho a você, que faz campeão um suco e revoga, tendo que gritar para trocar o sabor. Duas vezes. Mas não houve chuva. Sequer frio. Estávamos na pior-seca-desde-uma-data-muito-velha.

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Foto: Vincent Lock/Flickr cc

O colégio mudara desde o medo que o teto da quadra desabasse com aqueles pingos de aço. O enxame vinha com alarido e uma impressão de que era tudo sem querer. A despeito da fremência, o cheirinho de chuva (ou de terra molhada?) fez o sujeitinho atentar-se pr’umas coisas.

O cano aberto, as arquibancadas ásperas (e parcas: só três degraus), as cadeiras de braços marrom-escuras acavaladas perto das torneiras que faziam as vezes de bebedouro e de represa, já que os pilotos de jogadores tinham de seguir o ritual de fazer da mão direita uma concha, e da esquerda uma barragem. Energia limpa pronta para causar picos de pressão, esquentar a cabeça, machucar pernas desgraçadamente e sentir como é fácil jogar com o coração na ponta de qualquer coisa.

Logo no último mês de aula, já nas gincanas, viu aquelas águas na escola. Perdeu a partida, ficou de fora observando. Só pensava em respirar, muito embora o ar não lhe faltasse – como de costume, noves fora a asma. O tempo passou rápido, caramba. Nem conseguia calcular as horas de aula, as provas, as páginas de caderno, os quadros apagados na hora errada, as vezes em que encarou o relógio de parede comezinho. Tinha um medo quase bom do próximo ano. Tudo aquilo já era pó de giz no chão, que ainda não era de todo assentado e podia atacar alergias letargas.

Sentiu-se diferente, foi pra rua ver o tamanho – e a cor – da enxurrada. Quis também, de pouquinho em pouquinho, experimentar o gosto, o cheiro e o toque daquele réptil. Levava até uma pessoa, diziam. Só foi perceber anos depois que uma pessoa poderia ser levada pela água contra a sua vontade, e que isso não seria legal.

Voltando: enquanto todos ao redor naquele aposento infinito, nas baias maliluminadas por luzes frias sofriam para logo ver a grama esmeraldear, respirar direito, recuperar peles e cabelos, parar de lavar os carros e de regar o jardim, aboletar-se nos casacos elegantes e caros, ver nuvens alaranjadas, repisar poças, assistir a dramas bobos com edredom, aproximar-se de janelas pingadas e fitar só as gotas e desfocar o fundo da cidade que não importava mais de nada…

Ele só queria pertencer ali.

 

Du Esperanco

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