Dia Primeiro

É assim mesmo: o ipê tem de durar pouco. Na Hungria, o ano vem antes do mês, e este, antes do dia. Imagine. E a roda gigante fica em uma pracinha. Deixa você ver mais alto do que Igreja e Estado. A Roda Gigante fica bem longe do parque de diversões. Parece que o cume se mantém menos do que a gente gostaria que. E faz muito frio. Dá pra molhar a língua no vento. E como não chove, está bem bom. Tomara. Tomara.

As malas estão tão seguras que quase não precisamos nos preocupar. A maior escada nunca construída é a do metrô, com azulejos lisos e o metalzinho nas pontas. Passos curtos e firmes pra não cair no chão verde escuro. Linha verde. Os braços não podem se esticar, os dedos queimam. Cabo de guerra. Sem chance de perder. Como pesa quando seguro por tanto tempo. Boa noite, com licença, eu sou estrangeiro. Suado com casaco. Quando o trem chega, não dá pra não correr. Dentro do vagão o coração vai voltar ao imperceptível. Até a estação chegar.

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Tiggrx/Flickr c.c.

No banco perto do rio, ali por onde a cidade começou, pode dar sono. Mesmo de tarde. Mesmo naquela tarde branca. Abraça a bolsa e cochila pra frente até dar torcicolo quando acordar. Alguém pode estar olhando fixamente para dentro de você. Para as marés nas cavernas. É muito pouco provável que isso aconteça, mas já me ocorreu, uma vez.

Foi o pensamento mais rápido que já tive: tentei identificar aquele rosto, em não sei quantas frações. Escola ou trabalho ou coleguismo ou amizade ou amor ou família ou esquecido ou! Não deu certo. Em cada pouca língua que eu pouco sabia, pedi desculpas. Meus interpelos não tinham correspondência (como quando a gente fala dormindo e ouve nossa solidão de longe, provocando o sonho mais triste).

Fez olhos de desapontamento, foi embora mas ficou ali perto, com companhia. Abraçou-a. Não voltou a me olhar. Eu nem sentia mais o torcicolo, mas a culpa doía. Demorei a deixar o banco frio, tornado altar sobre aqueles degraus.

Só faltava conhecer o cemitério. Bonito em memória. Não tem porteiro nem pessoa alguma. Não tem velório. Uma mulher enterrava pétalas de rosa enquanto a filha não chegava. E os passarinhos do outro lado do muro branco e encaroçado cantavam muito mais do que o permitido. Saltitavam entre os farpados da parede mas teimavam em ficar do lado de lá, em volta parece que de uma jabuticabeira — porque descascosa. Acordar com esses piozinhos. Antes imprevisíveis. Era uma escola de surdos.

Du Esperanco

ex aspectu nascitur amor

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