Entre as pedras

De uma parede à outra é um rio de lonjura, e ainda assim o teto não cai, não mata. O céu tampouco despenca e nem paredes tem. Mas não moldamos o firmamento. Faz sombra aqui, e um pouco de frio. Não tanto para pôr um agasalho, contudo. É que venta muito. E lá fora está o mais quente que alguém já pôde imaginar.

Subo a escada devagar, como não fazia na escola. Estou cansado, mas não me estabeleço. Nessa cadeira, a gente só se senta pra não passar constrangimento. Sujeito letrado, imagine. Vamos pôr nestas linhas: como não vejo mais alguém neste palácio, não me assento. Olho bem de pertinho, fantasio a textura, mas só. Sem peso. Porque tenho certeza de que ela foi erguida para ficar em algum museu da memória. Sem sustentar coisa alguma além de si. Porque se espatifaria.

O tapete não pode ser pisado, embora chão. Tive o zelo de contornar aqueles trançados que parecem não se compor de nós – mas de uma superfície una. A mão esquerda pega o pulso da direita atrás do corpo e o piso descoberto pelo tapete não é grande o suficiente para abrigar dois pés lado a lado. Então tento me equilibrar, em uma cena provavelmente ridícula. Passos em fila indiana. Ponta do pé batendo no calcanhar. Devagar. Pelo menos não me sentei naquela cadeira. Em vez de atravessar o rio acarpetado, segui pelas margens. Mas cheguei. O corpo já sabia de tudo: à porta, algo muito importante acende o coração e irradia parte a parte.

É muito claro aqui. Tive de abaixar o rosto. Sem açodo, não fiz viseira com a palma. Tentei lançar mão pra valer da ciência da espera. Aguardei. Já enxergava meus sapatos – imundos e mal costurados duas vezes – normalmente. Eles ainda se detinham ao desafio de perimetrar a alcatifa. Pronto. Voltavam a ficar lado a lado e a se espelhar. Equilibrado, como tudo aqui menos… Agora era o momento de retornar o olhar para frente, como eu deveria ter feito em tantas vezes. Principalmente no último mês. Estou fazendo isso de novo.

A luz branca do sol mostrava de um jeito embaraçado aquele lugar tão massivo que nem se podia chamar, honestamente, de aposento. Não era parte de casa alguma. Era um lugar de verdade, inteiro. Melhor do que praças. Sei que aqui poderia começar a escrever um livro. E veria como as sombras vão andando por acolá no curso do dia. E do ano. E como a chuva trabalha por aqui. Que barulhos o teto lá fora faz com as tempestades, e se nos leva a achar a sério que chove por dentro.

Há um jardim no meio do mundo. As plantas cresceram no lugar planejado, como nós. As sombras gestam o brilho. O cheiro é úmido, tem mais água fluindo pra cá. Ainda bem.

 

Du Esperanco

ex aspectu nascitur amor

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