A terceira ponte e outras histórias

Nem todas as luzes da ponte estavam acesas. Duas, uma, duas, três, uma, uma. Sem qualquer ordem. Certo que o caminho não ficava comprometido: carros e motos e máquinas fotográficas poderiam seguir numa boa (embora estas precisem de perícia se não se quiser apelar para o artifício cômodo do flash, que para ser bem usado precisa de perícia e tudo de novo). Os arcos da ponte estavam sólidos, como sempre. Os leões petrificados, em uma ponta e outra, também. Constantes.

O que é necessário para atravessar? Um caminho que não se despedace antes do fim, que não demande guinchos ou mergulhadores ou bóias ou varais que não aguentam roupas tão molhadas, maiormente em dias tão nublados e com ventos desolados. Mas por que os arcos? Pombas! Por que os leões? Leões nunca viveram por aqui, e os que o fizeram não aproveitaram muito, mas o zoológico já rolou aqui debaixo e está muito longe.

Se alguém encontrasse o arquiteto de óculos que desenhou esta ponte, poderia indagar dos arcos. Provavelmente, ele será estrangeiro e não terá paciência alguma para nossas tolices. E será muito mal educado, e alguém argumentará: “Mas na cultura deles é assim”, esticando o salvo-conduto na calçada de pedras portuguesas e preparando-o para ser hasteado.

É quase pacificado que os arcos são mais longos do que a ponte em si. A mesma história que consta dos livros de sexta série na aula de biologia da sexta-feira: o intestino delgado, se esticado, é maior do que o sonho de todos vocês aí sentados. Todos. Mas estávamos mais concernados com corpos que se dividem em sistemas que se dividem em órgãos que se dividem em tecidos que se dividem em que se dividem em que se di vi d em. Sim, os arcos são maiores do que a ponte. Os leões não são maiores que coisa alguma, embora o sejam em comparação a leões de carne e osso (que nunca passaram por aqui porque o zoológico já passou e tudo de novo).

Como nenhum carro, moto ou máquina fotográfica usa os arcos da ponte, por que mesmo isso tudo? Nós construímos isso — não se trata de uma árvore torta. Bastava a pista. Custou caro, mais caro do que nós que pagamos gostaríamos, e já estou ficando mais triste com isso.

Se a ponte só ligasse uma margem à outra, o saudosismo ainda assim olharia para baixo, vendo o rio correr com o tempo, invariável. A teimosia ziguezaguearia pelas beiradas e ultrapassaria qualquer automóvel. A desventura estaria com muita pressa e se espatifaria em vidros e ferros e prostração.

Os arcos e os leões petrificados são como a mesinha da nossa sala quando nossos amigos dão uma chegada por aqui, seu chinelo colorido, seu batom, a pulseira de seu relógio, seus óculos oxidados em verde, a faquinha com desenho de cachorro, a xícara de sua predileção que tem de ser pegada de uma maneira engraçada e parece derretida porque é torta embaixo. O necessário não nos é estrito nos objetos (pelo menos isso). Não devem ser antídoto para os dias ruins, porque nunca funcionaram.

Mas alguém, um dia, deve ter apreciado isso tudo. E algumas das luzes da ponte esta noite estavam apagadas, fora da ordem. Como se houvesse um leão no meio da ponte, ou se um arco fosse mais torto do que os outros, ou ninguém tivesse sido jogado daqui de cima e depois se tornado santo. Duas, uma, duas, três, uma, uma.

 

Du Esperanco

ex aspectu nascitur amor 

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