Pesados Olhos

Tentou abrir os olhos, mas o peso era tamanho que a fazia desistir. Ficou assim por horas, talvez dias. Não era bem dizer uma preguiçosa, tratava-se de total incapacidade de simplesmente desgrudar as pálpebras. Nos poucos instantes em que conseguiu fixar o olhar, espreitou as cores brandas das paredes que emprestavam tranquilidade ao ambiente, em comunhão com a iluminação fraca e harmoniosa do lugar. Se precisasse fornecer a localização de onde estava, não conseguiria. Em verdade, não sabia precisar nem se estava viva.

Num dos raros momentos de olhos semiabertos, constatou a presença de um homem de vestes brancas ao seu lado. Como achava mesmo que ia para o inferno, não cogitou a possibilidade de se tratar de um anjo. O médico pronunciou algumas palavras, ininteligíveis, incompreensíveis mesmo. Talvez por isso, voltou a cerrar as pálpebras.

Ora, então não consegues ver? Olhe para seus olhos fechados: é lá que seus demônios estão escondidos. Aposto que você queria uns dias como Deus: julgá-los e condená-los ao último suspiro. Queria a cabeça deles exposta em hasta pública, como fizeram na Concórdia. Incautos, mereciam mesmo a pior sorte!

Aquele sentimento de anos atrás: o que você faria se não sentisse medo? Pois fez. Engoliu incontáveis comprimidos, de todas as cores e tamanhos. Achou que poderia fugir, o que viesse depois seria menos pior do que a explosão de emoções que teimava em permanecer. Era o limite, a única saída. Era, mas não foi.

A dificuldade agora era abrir os olhos; depois pensava no resto.

Renan Milaré.

Anúncios