O Quarto Azul Escuro

Desistira de escutar cada gesto seu como uma nota de música. Os acordes eram raros. Na verdade, o motivo nem este era: estava cansado de tanta dissonância com ritmo desatento. Poderia só viver com as mãos nos ouvidos, já que não havia inverno naquele país.

Aquelas vozes afetavam a visão no quarto penumbrado. Malditas pupilas grávidas de escuro. O diacho não era olhar direto para o sol ou ser vendado com rigor — amargo mesmo era enxergar só um pouco, em um aposento escancarado para os sentimentos tristes. Vultos andam, sim senhor, e são sempre feios. Quanto menos movimento fizer na cama ensopada, melhor. Apego ferrenho a uma dica sussurrada muito baixo.

O quarto ia aumentando, aumentando, aumentando. Sentia que estava num lugar extremamente desproporcional, como um ginásio massivo. Um ginásio muito massivo para uma pessoa tentar dormir na cama. Havia uma conveniência maldosa ali: enquanto as paredes e armários eram transparentes e se ampliavam, só tinha certeza do leito que seu corpo tocava. Estava realmente sozinho no meio de algo tão grande que devem ter demorado décadas para erguer.

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Umberto Zornio/Flickr cc

Não existia inverno no país. Nem guerras. Nem pedidos de desculpa. Mas o importante é que aquele calor só piorava com a câmara trancafiada e ele ouvia gritos e choros e conversas e risadas desdenhosas como em uma guerra que nunca vivera. Quando morresse, não seria na peleja, e tampouco se transmutaria em uma estátua grande com-uma-parte-dourada-em-que-dava-sorte-passar-a-mão-assim-dizem. Cavaleiro covarde.

Tentou de tudo, mas lá estavam a batida dolorida do coração nos tímpanos, a respiração asmática, os ossos com pouca graxa. O único jeito seria fazer movimentos muito rápidos, como quando se chega de uma festa cedo da manhã e você tinha achado finalmente aquela pessoa depois de anos cinzas e abre a porta de uma vez e ninguém te ouve e você está de meias brancas ficando encardidas, mas pelo menos reticentes. Mas ninguém quer se mexer assim nesses momentos.

Até poderia entrar em uma espiral de seu nome e apelido, chamados grosseiramente pela população inteira de um povoado enorme. Não poderia, contudo, fazer nada daquilo parar. Nem responder a um daqueles vocativos, ou dar o que eles queriam, ou rir junto, ou chorar junto — não conseguiria rir naquele estado depressivo, tampouco teria companhia no plangor, e de verter pranto sozinho já estava por aqui. Nunca dormiria com aquele barulho interior. Crescer lhe deu ecos.

A noite é escura especialmente para alguns. Mas tudo ficaria bem quando ele percebesse que não tinha de desejar pálpebras nos ouvidos ou prestar desatenção às melodias de seus gestos. Ele só queria agradar, mas alguma coisinha sempre saía errado, ao melhor modo real. E era tão pesado. Tudo ficaria bem desde o instante em que parasse de almejar uma música com a vida, nas quais não haveria descompassos. Tudo ficaria bem quando ele conseguisse ficar em silêncio.

Du Esperanco

ex aspectu nascitur amor

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