O Coração

Tocava em frente tão simples que as roupas formavam algo bonito com os panos de fundo. O primeiro pensamento, antes mesmo da consciência acordada, era de que haveria o encontro. Já percebera: a cenografia não mudaria de acordo com o que sentia. Nunca fora importante, estava sempre de fora dos cartazes promocionais e dos brindes de plástico.

Ainda, tocava. Pelos mesmos caminhos. Os vizinhos sem nome barrendo a rua imunda em tantas camadas, com aparentes tampinhas de cerveja fossilizadas. Todos de casaco. Cedo. Muito cedo. Bondia, bondia. Aôp. O máximo de intimidade brotaria em uma pergunta —  bastava repeti-la para ter a resposta.

— Mais um dia, menos um dia?

— Mais um dia, menos um dia — rebatia fraco, fumacinha saindo da boca, olhando para frente, mas muito para baixo para ser horizonte.

Pensava no que se sucederia dali a vinte minutos. Ainda não seria sol nascido. Voltariam todos para a cama de casal, arrepiando-se com as colchas peludas frias? Fariam café? Fósforo para o fogão? Janelas abertas pela grade ou pelo vidro? Pra quê tão cedo, minha gente. Bom, ele não podia ficar ali espiando. Nem olhando para onde não estava andando. Era correto.

E era instável. Os instantes de felicidade nunca passaram de instantes. Sempre frações, pedacinhos, caquinhos que machucavam a mão que tentava levá-los de vez, ou a garganta que acha que tem fome de tudo. Os instantes tristes tinham duração incerta. Doloriam tanto que era difícil sequer ter interesse em medi-los. Era melhor que passassem. Dormia logo. Quando acordava, ainda sentiria uma estocada por ter tentado fugir. E tentava fugir disso também. Sentia muito e tinha a certeza — só emocional — de que algo muito criativo o controlava. Confundia as memórias com imagens que via frequentemente.

Thistle-Garden/Flickr c.c.

Quase todas as roupas eram daquele azul clarinho, mas responsável. Passível de ser pintado em uma folha em branco sem se esconder. Ou de ser usado em aquarela sem virar água ou se espraiar pela mesa até molhar um desavisado. Os muros eram da mesma cor. Claro que nem tudo era azul. Era uma cidade planejada. Mas tudo ali dava liga. Do chão irregular cresciam, sim, plantinhas. Mas todas com verde claro. Os tijolos terrosos, as flores carmins, as cercas brancas pretas pratas rosadas. Nenhum portão ou portinha ou caixa de correio sequer verde limão. Até os enferrujados entravam na cumplicidade. Luz perfeita.

No meio da rota para o trabalho, a paleta mudava. Novas fachadas. Era quando ele sentia calor e tirava a jaqueta azul. Camiseta lisa. Cardo. O cenário já acompanhava o relator. Era o mundo do cardo. Quase tudo agora era verde, daquele verde clarinho, mas responsável. Amarelos eram bem-vindos, o sol também estava lá, o azul do céu de brigadeiro para um dia de férias, sim, claro. A esse tranco chamavam de outro bairro. Para ficar mais crível, as lixeiras e as placas de trânsito também cambiavam, e inventaram que cada parte de uma cidade tinha conselhos — equivalentes a subprefeituras, mas de um jeito efetivo. Não havia notícia de conselheiros.

Ele seguia meneando a cabeça para os transeuntes. Era o único cardo daquele campo grande, que acaba nas montanhas. E a vida seguia. Do mesmo modo. Tanto era que poderiam criar uma medida de distância constante como ano-luz. Todos sabem o que é um ano, e todos pensam imaginar o que é a velocidade da luz. É, é possível.

Todos ali eram atores medíocres. Fossem mais do que ordinários, daria para aferir sentimentos, causas, empuxos. Os brilhos nas pupilas refletidas. Um bom ator nos mostra tudo isso, mesmo que não nos interessemos muito por. Talvez fosse por isso que se sentia tão vazio e quebrado. Cheio de nada.

***

Foi quando viu um passarinho. De cores nunca antes. Sem nome. Vou citar só as azuis: ardósia e céu profundo e alice e furtivo e taparuere e flor de milho. Era o primeiro animal que conhecia.

O bichaninho veio curioso, meneando a cabecinha, dando saltinhos como se o asfalto com tampinhas ardesse e ardesse! Pulinhos curtos e fortes. Tu tu tu tu. Se viu refletido naquele olhinho, que abria e fechava tão rápido! Ele respirava. E ponderava. Imaginou o pulmãozinho. Tensão e relaxamento. Não sabe quanto tempo ficaram ali em silêncio cúmplice e talvez errado. Mas a hora teria de chegar: piou e voou. Subiu e subiu.

A cabeça não tinha percebido o céu com nuvens mal pintadas. Ficou até zonzo, quase caiu para trás. Tentava acompanhar o pontinho pintado com asinhas. Buscou esticar a coluna pelo menos uma vez.

O passarinho se chocou lá em cima. Algum muro invisível. Um rachado redondinho no vidro. E o bichinho despencou até o chão. Algumas penas coloridas ainda voavam, mais leves que o ar.

 

 

Du Esperanco

ex aspectu nascitur amor

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