Por um triz

Foi sem querer que percebeu o balé silencioso da troca de marchas acompanhado da alternância de pedais. Suas mãos sob o cobertor, dedos entrelaçados com os dela, pés gélidos sob o nada. Na mente, o sentimento inexplicável que uma nova experiência costuma proporcionar. E nada como as experiências para destruir nossas (suas) certezas. Desejou que aquelas horas demorassem a passar, mesmo sabendo que estes desejos não podem se concretizar.

Quase sempre fora complacente com a razão e intransigente com a paixão. A eterna pós-modernidade poderia ter um novo sinônimo: abate humanizado. Suas pálpebras pesadas, sem dó nem piedade, exterminavam prazeres diários, diariamente.

A intenção de pensar sobre os lados sublimes da vida sempre foi postergada pelas incumbências hercúleas e teóricas de transformar o mundo em algo minimamente aceitável. Aqueles velhos momentos de ócio produtivo agora mais pareciam um sonho, um sinônimo da preguiça demonizada pelo tardar das horas.

Outrossim, a bem verdade é que julgava ter a capacidade de escolher o que valia ou não a pena preocupar-se. Ledo engano. E foi mesmo quase sem querer que, despreocupadamente, despretensiosamente, correu o dedo indicador para o lado certo. Estava feito, afeiçoado, fascinado. Por um triz.

Livre para não querer fugir.

Renan Milaré.

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