Sábado

Enjoada daquelas músicas, apertou sua chave, equilibrou-se nos saltos e descumpriu o primeiro combinado daquela noite. A bebida morna à mão foi para a mesa entulhada, o vestido simples seguiu rente ao corpo. O peso em sorrir. A distração em meio a tantas cores: os copos neon, as bebidas dentro deles também, e as calças na altura da barriga das meninas com costelas aparentes como há 20 anos. Como o globo de discoteca, o único ponto em que ela descansava a atenção, girando para sempre em pedacinhos. Ela precisava sair.

Ar fresco. Sentiu a maquiagem desmanchar no rosto, o coração pesado, os olhos carregados. Sentiu muita coisa. Deixara a casa sem obstáculos, a porta sempre aberta, mais gente perfumada entrando depressa demais. Quase caiu. Salto alto. Precisou pisar com cuidado na grama. Nenhum “para onde você tá indo, segura aqui, vamos ao banheiro comigo, preciso desabafar, vamos tirar uma foto”. No fim, foi até bom. Não precisava ficar mais aporrinhada. De toda forma, nada para se deter sobre — nada andava bom naquela noite.

As músicas agora eram só batidas graves perdendo forma a cada passo. Ouvia o ritmo dos sapatos no asfalto. Não havia calçadas naquela cidade feita para as máquinas quentes, duras, com quinas e faróis. Nas outras casas, outras músicas, outro dia solitário para mais alguém. Uma delas saía do compasso da rua. Era toda de vidro e concreto branco, sem tijolos à mostra. Agora, o lugar estava adormecido. A única luz ali, vista da rua, era o reflexo dos vidros de quatro janelas, em luz e sombra. Na janela da sala, viu seus olhos escuros, pupilas grávidas, o buraco negro das coisas, procurando o vazio. Seguiu caminhando. Em outra, no quarto da filha maior, veio a maquiagem incrivelmente alva. Depois, no quarto dos pais, o cabelo liso, grande como nunca. No quarto da criança, entre os adesivos coloridos, o vestido modesto, digamos assim. Quando chegou ao muro, seus sapatos pararam.

Aquele cheiro de flor tinha algum significado grandioso, mas distante. Só conseguiu pensar em como havia se acostumado àquela fumaça barata da festa. Sentou-se num banco ordinário de pedrinhas e cimento, sem nomes de pessoas ou patrocínios pintados. Gelado do sereno e daquela tristeza. Sobre as pedras portuguesas estavam seus sapatos inapropriados, altíssimos, aveludados, lustrosos, francos, que dariam para um casamento, para o baile impossível, para a premiação mais relevante. Mais bonitos do que o modo como a beleza funcionava ali.

Olhou para baixo, seu gesto característico, fitou os pés apertados, e por ali afundou. Respirava com esforço, as mãos coladas, na reza mais simples das crianças. Desafivelou o par e tocou o concreto úmido com a sola fina dos pés. Colocou aqueles dois pesos finos com zelo a seu lado. Era de fato um belo par, mesmo sob aquele espectro dourado do poste. Uma luz se acendeu no quarto da criança, e isso durou só um instante. Levou um susto, mas como a sombra tornou a dominar e por ali ficou por um bom tempo, seu pensamento voltou a voar.

Não havia mais nada, afinal. Nem música, nem fumaça, nem festa, nem depois-da-festa, tampouco olhares que se encontravam em vão e se afastavam por querer. Nem os horários havia mais. Era sábado.

O vento nas árvores a lembrou do mar. Água corria forte em algum lugar longe dali, e afundava as coisas reais, com calma. Essa visão a carregou, com seu rosto triste — esta palavra a fez chorar.

Luz. A lâmpada voltou a colorir os adesivos infantis na janela. Do outro lado da parede, os pais se alarmaram e também passaram a mão no interruptor. Passos de calcanhar no chão de madeira, algo foi derrubado e quebrou o descanso. Entraram no quarto do bebê, pegaram o filho. Falaram o que não se pode entender. Se aproximaram. Agora a janela se abriu, e os três olharam em pedra para ela, de vestido salpicado pela maquiagem, descalça, explodindo aos poucos. Ela se assombrou. Passou a mão nos sapatos, calçou-os sem ter tempo de fechar todas as fivelas e voltou a andar, rápido. O portão se abriu ao toque das suas chaves e no final bateu, sempre com estrondo. Ligaram as luzes e depois as apagaram.

 

Du Esperanco

ex aspectu nascitur amor

Anúncios