Preferiria sim

Conversa graúda a gente podia deixar pr’as cartas. O agradecimento sem jeito, e por isso tão necessário, e por isso sem jeito, a fotografia desse amor tão crescido, a sua política, a janela aberta pro mar danado que embala nosso sono. Tudo bem darmos descanso à letra ilegível nos cumprimentos retóricos e de caráter duvidoso enquanto a fila não anda, o elevador não desce, a calça não se engoma com claras só pra sobrar gema pra cozinhar quindim iaiá. Enquanto lhe trocam de cenário cinco vezes ao dia e você tenta não figurar, seria uma ótima ganhar elogios e poder responder dali a meses, deixando o revide à homenagem para o pós escrito sincero, depois da margem, abreviado. Mas cartas não existem mais.

Não disse se um grafismo, xilogravura, balancete, cupom, tíquete, fóssil de flor, beijo de batom retocado só para, mãozinha de tinta, digitais. Missivas não são feitas só de prosa. Embora até em branco ela ser possa, desde o envelope, com os quadradinhos ignorados.

Na verdade, melhor não. Só se a epístola for enviada por um moleque pago na rua, oi, venha até aqui, venha, vá ali até rua Imperial, 42, entregue a, sim? E aqui vai sua recompensa. Em mãos.

Mesmo que em branco, uma epístola envolta num envelope caxias com lacunas satisfeitas e pintadas como pedem os Correios não seriam carta branca pra ninguém. Como não foram em vão as cartas que não completaram a corrida até o destinatário.

Nas missivas dá tempo de um menininho estar logo atrás do papel, seguindo a luz do seus olhos, mostrando-lhes por sinais simples o que veio antes e o que pode vir logo. Traz memória e sopra termos da réplica — meses depois ou nunca. Vai, volta, sublinha. Pensa que faria diferente. Tenta fazê-lo, faz igual. Dá tempo. Dá tempo. Dá tempo.

Em tempo, foram feitas aos cuidados de alguém, que pode até ter chamado o amigo de escudeiro, Esquire, ou coisa que o valha. Não é nada não é nada, quem faz isso? E são muitos símbolos, significados, você vê. Coloca-se tudo em preto e branco, contrasta-se. E não há só um tempo presente, porque até o envelope ser aberto e o selo, contemplado, é questão de dias. Tenha a humildade de saber que esta chuva forte passará, e não adianta muito pedir opinião sobre enquanto ela cai. Mas vale contar o que você sentiu, projetando o cessar. Quem sabe até “quando você ler isso, já estarei melhor”.

Pode-se esperar pra responder, não tem aquele silêncio surdo da conversa sem jeito, mirando o azulejo embaixo. Tampouco o esquecimento eterno ou o assunto-anzol que nunca vem e evita você sacar o “mudando de assunto” (está tão mau assim?). E mando também um cartão postal de bem longe.

Melhores desejos,

p.p.s.: Porque a cartinha é o guarda-chuva preto que está em nossa família há tanto.

 

Du Esperanco

ex aspectu nascitur amor

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