Pensei Que Não Ia Passar Nunca Mais

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gunder/Flickr c.c.

Sentiu pena de si por estar no meio daquilo. E mais pena por esse sentimento. Filhotes não devem preocupar-se com saúde quando estão em doença, pelos mesmos motivos que não devem ser enterrados pelos pais.

Na entrada do universo seco e amarelo claro, algo começava a ter um gosto péssimo e ia se afundando. Desgosto que justificava passar horas de cama. Eu não quero engolir aquela pílula amarga. Era muita coisa de uma vez só. Tudo comprimido num gole pra curar.

Tinha total noção de que tratava-se de um remédio. Não melhorou a cena. Pensou em outro atalho fácil: poderia cantarolar. Piorou. Não tinha sorte como os cartuns. Estava mal, e isso era um dos ganchos que pendurava-o sem querer — era colocado para secar pra sempre —, que abria seus olhos de manhã e provocava uma triste aurora, a despeito de ter as mesmas cores das aquarelas mais bonitas. Aquela luz o tocava. Em vezes como esta, doía como o purgatório.

O sabor de ter chegado a uma parte da viagem em que ninguém mais cuida de suas malas, ou se você imprimiu os tíquetes, ou se o trem vai deslizar mesmo com um pé seu em cada continente, e vai lhe partir. O maior desafio será aquilo que sempre criticam em você, mas o problema é que ninguém vai ver. Não é só porque você está sozinho com frio que nenhuma pessoa ligue. O duro é que elas estão longe demais. Melhor nem pensar mais nisso.

Para não dizer nunca, em raríssimas vezes havia questionado-se no meio de algo. Só fazia esse algo. Mal a mal, estava magoado de novo sem saber o porquê. Costumava investir um bom tempo procurando a resposta. Mas agora não. No meio daquilo tudo, com as luzes doídas, desejou ouvir o seguinte: uma contagem de sussurro mal articulado, de um a vinte. Só sílabas tônicas.

Quis que fosse seu pai a enumerar, no escuro, quantas gotas acres eram pingadas na sua língua muda febril. Enquanto ocupava-se com a surpresa de constatar que o conta-gotas branco e liso comportava muitos pingos, e torcia para que ele não acabasse, a febre ia passando e o pijama, ensopando. Até que a mão de papai ia broncamente de sua testa até seu pescoço, ensinando a um termômetro como se faz. Os olhos estavam com fome de dar bons recados com as cores das aquarelas de cedinho. Quem sabe amanhã. Ele poderia usar aquele lápis velho, da primeira gaveta cheia das tralhas, que tinha cera multicolorida. Jurou que dali pra frente daria mais atenção a sinais vitais. E as férias estavam quase chegando…

 

Du Esperanco

ex aspectu nascitu amor

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